Há duas semanas, ao comentar a coluna sobre a relação entre vendas de desktops e notebooks no Mercado Livre, algumas pessoas contaram suas experiências positivas e negativas com o site que domina o mercado brasileiro de leilões/classificados online. Prometi relatar um fato ocorrido comigo anos atrás, então vamos a ele.
Sempre usei o Mercado Livre esporadicamente, para me desfazer de sobras de upgrades e brindes indesejados - às vezes oferecidos a preços simbólicos - ou para comprar itens difíceis de encontrar no mundo offline, como revistas em quadrinhos antigas. Longe de ser um vendedor profissional, mas consegui acumular algumas dezenas de qualificações - todas positivas - que me ajudavam nas vendas seguintes.
Um belo dia, depois de várias semanas sem acessar o site, tentei me logar para anunciar um produto e tive minha senha recusada. Tentei novamente sem sucesso e, intrigado, cliquei na opção “esqueci minha senha”. Informado de que aquele apelido não existia, comecei a achar que minha conta tivesse sido apagada. Antes fosse… pois a verdade era muito pior.
Catei nos meus e-mails o link do último produto que eu havia vendido e cliquei nele para ver se meu apelido apareceria lá, possivelmente como “usuário inabilitado”. Qual não foi a minha surpresa ao ver um outro apelido totalmente diferente, com a mesma pontuação que eu tinha? E não era só isso: olhando o histórico do sujeito, dei de cara com o meu próprio. Era exatamente a minha conta, só que com outro nome!
Problema técnico do Mercado Livre? Podia até ser, não fosse pelo fato de o “novo-eu” estar anunciando meia dúzia de notebooks topo-de-linha a cinco mil e tantos reais cada, abaixo do preço de mercado, e alguns já terem até recebido ofertas. Nesta hora eu gelei - estavam armando um tremendo golpe usando minha reputação!
Cheguei a me culpar por usar uma senha relativamente fácil, a mesma de outros sites, e temi que algum cavalo de tróia a tivesse roubado de mim a partir de meu próprio computador. Raciocinando um pouco, no entanto, me dei conta de que não podia ser este o caso, já que os usuários do Mercado Livre não podem trocar seus apelidos. Quem seqüestrou minha conta o fez explorando alguma falha de segurança do site.
Cliquei em todos os links de reclamações, suporte ao usuário e denúncia de produtos proibidos e enviei mensagens em todos os formulários alertando a administração do site e pedindo o bloqueio da conta imediatamente. Como já sabia que a resposta deles costuma demorar muito mais que o razoável, decidi tentar fazer alguma coisa por conta própria.
Tentei me cadastrar novamente para dar lances nos produtos ou fazer comentários alertando os outros compradores. Naturalmente, o cadastro foi rejeitado porque já existia outro com o meu CPF - claro, o vigarista, além de tudo, estava usando meus dados pessoais para aplicar o golpe, o que ainda abria a possibilidade de euzinho levar um processo por estelionato depois que ele sumisse com a grana!
Aí já era demais! Lembrei-me de uma matéria que fizera meses antes sobre sites de leilão, localizei o telefone da assessoria de imprensa do Mercado Livre e pedi socorro. Consegui o telefone de uma funcionária do site, algo praticamente impossível de obter pelas vias tradicionais, e tratei de ligar para contar a história. Fui muito bem atendido e minha conta renomeada de volta para o apelido original, com uma nova senha. Ufa!
Mas quem disse que o problema estava resolvido? Faltava explicar a história para os pretensos compradores dos tais notebooks. Dois deles me qualificaram negativamente por desistir de vender o produto (muito simpáticos, devia ter deixado que fossem enganados!) e um terceiro nunca se manifestou - desconfio que fosse um “laranja” do golpista, criado apenas para incentivar os lances.
Passei as semanas seguintes tentando convencer os atendentes-robô do Mercado Livre a estornar as cobranças de comissão pelas “vendas” dos notebooks. “O comprador informou que a transação não foi concretizada por culpa sua, então a comissão é devida, senhor”, diziam eles. “Mas não fui eu quem cadastrou esses produtos”, eu argumentava repetidamente.
Quando finalmente me livrei das comissões indevidas, passei a brigar pela remoção das duas qualificações negativas que haviam manchado minha reputação até então impoluta. Não apenas pelos pontos, mas porque vinham acompanhados de depoimentos de pessoas que tinham sido enganadas ao tentar comprar produtos muito caros - algo que acabaria com minha carreira de vendedor-amador.
Nem preciso dizer que foi outra odisséia de contatos com os atendentes-robô. No melhor trecho do diálogo, um deles me disse que “é contra as normas do site apagar qualificações, senhor”, ao que eu prontamente retruquei “e não é contra as normas do site alguém hackear a minha conta e anunciar produtos para dar golpes?” Acho que consegui convencê-lo, pois as qualificações foram apagadas e tudo voltou à normalidade, mas só quem já passou por isso sabe o desespero que foi…
Aliás, que tal se o pessoal aqui do Fórum contar também suas histórias de terror e como elas foram (ou não) resolvidas? Não apenas do Mercado Livre, mas de qualquer site de comércio eletrônico. Vai ser interessante saber o tipo de confusão que acontece por aí e, de quebra, ainda podem surgir dicas para resolver alguns desses problemas!
Coluna originalmente publicada no Fórum PCs sob licença Creative Commons Atribuição - Uso Não Comercial - Não a obras derivadas 2.0