Compras de eletrônicos, casas sem-fixo e buracos de bala

July 12, 2007 on 3:01 pm | In colunas, consumidor, forumpcs, mercado | No Comments

Existe uma máxima de que as lojas físicas estão perdendo muitas vendas para a internet mas, ao mesmo tempo, fazem parte do processo de compra dos consumidores online. A idéia é que as pessoas vão às lojas reais para ver e experimentar os produtos mas depois os encomendam de uma loja virtual que tenha preço menor e, no caso dos Estados Unidos, não cobre impostos sobre a venda por estar fisicamente localizada em outro estado.

Pois uma pesquisa realizada pelo Yahoo! e pela ChannelForce acaba de comprovar que a internet também colabora com as vendas das lojas do mundo real – pelo menos quando o assunto são eletrônicos. A conclusão do estudo é que os consumidores que pesquisam o produto na web antes de ir a uma loja física gastam mais do que os que vão direto à loja. Em números, esses consumidores melhor informados gastam US$ 31 a mais em câmeras digitais e US$ 139 a mais em televisões, por exemplo.

Dos consumidores que disseram ter pesquisado o produto em mente antes de ir às compras, 75% usaram a internet – sendo que a maioria deles recorreu a sites de e-commerce (73%) e dos próprios fabricantes (68%). Quase a metade (49%) declaram ter usado ferramentas de busca. Mais de 80% dos consumidores acabaram comprando um produto da marca considerada inicialmente – os outros 20% se deixaram influenciar pelo vendedor. Por outro lado, 75% dos compradores não sabia o modelo que queria ao entrar na loja.

Resta saber se o consumidor gasta mais por estar melhor informado – como alegam os realizadores da pesquisa – ou se já estava mesmo mais inclinado a gastar mais e, por isso, pesquisou antes. Alguém precisa de pesquisa para saber que quem compra um carro provavelmente se informa mais sobre ele antes do que quem compra um pneu? Assim como na pesquisa que mostrou que donos de MP3 players compram mais eletrônicos, se olharmos desta forma, a conclusão nos parece meio óbvia.

O impacto da população sem-fixo nas pesquisas

Já que o tema é pesquisa de mercado, um estudo da Pew Research divulgado ontem revela uma preocupação interessante no segmento: o crescimento do número de residências americanas que não têm telefone fixo. Explica-se: como 12,8% dos domícilios dos Estados Unidos só têm celulares (e o percentual só faz crescer: em 2003 eram só 3,2% e até o fim de 2008 devem ser quase 25%), por volta de um oitavo da população não é mais levado em conta nas pesquisas realizadas por telefone.

Se o perfil das pessoas que só têm celular fosse igual ao dos usuários de fixos, isso não faria muita diferença no resultado das pesquisas. Mas a Pew descobriu que faz. A Pesquisa Nacional de Saúde indicou que os sem-fixo são muito mais jovens e têm maior probabilidade de serem negros ou hispânicos, solteiros e morarem em residências alugadas – o que implica em padrões de comportamento bem diferentes.

Uma comparação de respostas sobre 46 tópicos que vão do uso da tecnologia a posições polícas revelou uma diferença média de 7,8% entre os dois grupos – o que levaria a uma distorção de até 2% no resultado final das pesquisas. O efeito final parece pequeno, mas pode ser representativo em pesquisas focadas em segmentos onde a existência de residências sem telefone fixo é maior. Uma análise de comportamento jovem mostrou uma aprovação muito menor ao consumo de álcool e maconha quando foram excluidas as respostas dos que só têm celular.

Excluir esse grupo também tende a reduzir a percepção de adoção de novas tecnologias. Segundo o estudo, quando considerado apenas o grupo dos que têm telefone fixo, 50% dos jovens entre 18 e 25 anos dizem usar redes sociais. Ao incluir as residências sem-fixo, a participação sobe para 57% (e a penetração do MySpace deve aumentar ainda mais, já que ele é mais popular entre os latinos). Eu seria um bom exemplo disso: só tenho telefone fixo em casa porque não dá para ter Velox sem ele (e ainda dizem que venda casada é proibida).

Tirando conclusões pela falta de dados

Um último pensamento sobre pesquisas, roubado de um post do Fabio Seixas, sobre outro do BusinessPundit:

Durante a II Guerra Mundial, o estatístico Abraham Wald tentou determinar onde reforçar a blindagem dos aviões. Baseado no padrão de buracos de bala nos aviões que voltavam das batalhas, ele sugeriu que as áreas não-atingidas tivessem a proteção reforçada. Por quê?

Coluna originalmente publicada no Fórum PCs sob licença Creative Commons Atribuição – Uso Não Comercial – Não a obras derivadas 2.0

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